sábado, 16 de fevereiro de 2008

Tendências do Jornalismo (por Luiz Otávio Tal)

“O Jornalismo será interpretativo, não por dar a interpretação feita, digerida, mas por permitir fazer essa interpretação a quem legitimamente deve fazê-la, que é o público”.

César Luís Aguiar[1]

Amparado pelo livro de Luiz Beltrão[2] pretendo traçar neste post, de maneira breve, os caminhos pelos quais a imprensa tem se enveredado na atualidade. A apuração mecânica não resistiu ao tempo. Hoje não basta o jornalista oferecer simplesmente a informação crua, ele deve tratá-la a fim de que as pessoas se inclinem para recebê-la.

O repórter pode trabalhar seu texto sob três perspectivas: de modo vertical (intensivo), onde há um aprofundamento do fato, levantando uma hipótese que pode ser apresentada de maneira impositiva ou opinativa; de modo horizontal (extensiva), quando há a interpretação dos fatos, ou seja, o que interessa são as forças que atuam sobre o acontecimento; e de maneira sensacionalista, em que a sonegação de informações e fontes levam o receptor a conclusões óbvias e convenientes.

O advento tecnológico capacitou a massa junto à interpretação das informações, alargando a superfície de contato. As antigas teorias da comunicação, que pintam uma população surda, muda e cega, já não têm mais valia. Contudo, a entrada da globalização pode implicar na negação do jornalismo extensivo, pois o dinamismo diário poda o tempo necessário à interpretação dos fatos, logo muitos ainda insistem em um aprofundamento tendencioso, que leva ao receptor a conclusão dos fatos.

O Caminho natural seria o desapego da parcialidade na verticalização e o insentivo das técnicas horizontais, por mais que seja evidente que é impossível a construção de uma matéria totalmente imparcial, uma vez que cada repórter possui características que lhes são únicas. Mesmo que ainda existam pessoas “atomizadas” (e ainda existe), que funcionam no sentido estímulo-resposta, é evidente que o jornalismo interpretativo não seja um empecilho para estas absorverem a informação, uma vez que proliferam na sociedade líderes comunitários, seja no campo ideológico ou no núcleo familiar, que traduzem a linguagem recebida de acordo com os interesses de cada bloco da massa. Em outras palavras, alguns serão “alimentados” pela palavra de um padre ou um pastor, já outros vão depender da análise do William Bonner no Jornal Nacional.

Ao folhear qualquer jornal diário logo se percebe que a grande maioria das reportagens apela para a interpretação, contudo, como foi visto ainda persistem a técnica vertical. A título de ilustração, escolhi uma matéria publicada pela Folha On-line para analisar e logo percebi tanto características de um modelo quanto do outro.

A matéria é uma reformulação do trabalho mecanizado das agências de notícias. Sobre as eleições parlamentares no Paquistão, o texto trabalha com um assunto “quente”, que implica em uma reorganização do valor ideológico, uma vez que estão em jogo as relações internacionais.

O primeiro bloco de matéria é o típico exemplo de jornalismo interpretativo. Há a documentação dos fatos: a eleição ocorrerá na segunda (18), pesquisas de opinião revelam a queda da força do partido de Pervez Musharraf e há apreensão por parte da população com o aumento da violência. Em suma, a conclusão é um exercício do público receptor, permitindo o feedback com a empresa jornalística, que é fundamental para o solidificação do veículo.

Já os desdobramentos da matéria estão recheados de conclusões unilaterais. O texto especula as atitudes do ditador, mesmo este tendo afirmado que as eleições ocorrerão no prazo estipulado e que estas serão justas e livres. Musharraf pode até estar mentindo, mas não foi apresentado nenhum documento que comprovasse a farsa, apenas foi levantada a opinião do ex-premiê, Nawaz Sharif, que são apenas opiniões.

A verticalização é uma técnica aceita, desde que construída sob responsabilidades, para que não se converta em um sensacionalismo barato, que vai contra todo o código de ética profissional. Por outro lado, é na extensividade que o repórter consegue crescer, pois deste modo ele entra em contato direto com a ala mais importante: o público.


[1] AGUIAR, César Luís – Interpretación on la Prensa – In Periodistas católicos – ano 5, n° 25- Abril, 1972 (Ed. Da UCLAP – Montevideo).

[2] BELTRÃO, Luiz. Jornalismo Interpretativo: filosofia e técnica. Porto Alegre: Sulina,. 1976.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Saudade (Fernando Pessoa)

Hoje faço uma pausa em minhas postagens habituais para postar Fernando Pessoa, que melhor do que ninguém traduz meu estado de espírito.

SAUDADE

Um dia a maioria de nós irá se separar.
Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora,
as descobertas que fizemos,
dos sonhos que tivemos,
dos tantos risos e momentos que compartilhamos.
Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia,
das vésperas de finais de semana,
de finais de ano,
enfim... do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.
Hoje não tenho mais tanta certeza disso.
Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino,
ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez
continuemos a nos encontrar quem sabe... nos e-mails trocados.
Podemos nos telefonar conversar algumas bobagens...
Aí os dias vão passar, meses... anos...
até este contato tornar-se cada vez mais raro.
Vamos nos perder no tempo...

Um dia nossos filhos
verão aquelas fotografias e perguntarão,
Quem são aquelas pessoas?
Diremos...Que eram nossos amigos.

E... isso vai doer tanto!
Foram meus amigos, foi com eles que vivi
os melhores anos de minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente....
Quando o nosso grupo estiver incompleto...

Nos reuniremos para um ultimo adeus de um amigo.
E entre lágrima nos abraçaremos.
Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante.

Por fim, cada um vai para o seu lado
para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado.
E nos perderemos no tempo....
Por isso, fica aqui um pedido desta humilde amigo:

Não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas
adversidades seja a causa de grandes tempestades...
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem
morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se
morressem todos os meus amigos!

Fernando Pessoa

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

ENTREVISTA EDSON ARAN (por Luiz Otávio Tal)


Editor da revista Playboy desde abril de 2006. Acumula passagens pela revista Sexy e VIP, além de ser autor de HQs.

- O que o levou a ocupar o cargo de editor na Playboy? Ficou surpreso com o convite?

Fiquei. Apesar de ter trabalhado na Vip por cinco anos, naquela época eu estava dirigindo a concorrente, Sexy, e é raro que a editora Abril busque profissionais na concorrência. Embora o trabalho na Sexy tenha sido muito bom, pois a revista ganhou vendagem e share, batendo três vezes a Playboy nas bancas (algo inédito na história das duas revistas), eu fiquei surpreso. Não esperava o convite.

- No início de sua gestão, qual foi a maior dificuldade que você teve para se adaptar?

Não houve dificuldade, pois eu sempre tive a percepção de que a Playboy e a Sexy eram revistas completamente diferentes, embora estivessem no mesmo segmento de mercado.

- Você tem uma larga experiência com HQs. Isto, de certa forma, ajudou na construção da nova identidade visual do veículo?

Acho que não. A não ser pelo fato de que eu conheço bem os cartunistas da Playboy nos Estados Unidos. Foi por isso que publiquei Dirty Duck, Gahan Wilson e Aninha Bonita e Gostosa no Mundo de Playboy.

- No Brasil, a Playboy não tem qualquer conotação negativa. Isso se deve à forma como o sexo e o erotismo são encarados?

Isso se deve à maneira como a Abril fez a revista nesses 32 anos. De fato, a Playboy brasileira continuou (e continua) fiel à filosofia de Hugh Hefner. Basicamente o que Hefner prega é que a Playboy não é uma revista de mulher pelada, mas sim uma revista de estilo de vida.

- Você já se arrependeu de alguma produção? Achou o ensaio apelativo ou pornográfico?

Nunca, porque eu jamais faria um ensaio apelativo ou pornográfico.

- Já vetou alguma foto considerada agressiva?

Já, claro, inúmeras. Se bem que, quando você tem um conteúdo jornalístico de qualidade, você ganha certa liberdade para ser mais ousado. Mas há um limite tênue, não-escrito, sobre até onde se deve ir.

- Como é feita a seleção de uma modelo?

Levamos em consideração o grau de exposição na mídia, a “gostosura” e o nosso Plano Operacional (no começo do ano montamos um plano que especifica valores de cachês, expectativa de venda e lucro presumido).

- Qual estrela você gostaria de ter na capa, mas ainda reluta em assinar o contrato?

Uma dezena delas: Camila Pitanga, Ana Paula Arósio, Cléo Pires, etc. A lista é longa.

- Apesar de o Brasil ser um país miscigenado, em toda história da Playboy apenas cinco mulheres negras estamparam a capa. O que explica esta disparidade?

Porque apesar de o Brasil ser um país miscigenado, não existem muitas estrelas negras nas novelas e programas de TV. Quantas, de fato, têm papel de destaque? Muito poucas. Nós estamos muito longe de termos, no Brasil, atrizes ou cantoras negras com o destaque de uma Beyoncé ou de uma Halle Berry, por exemplo.

- Quais as diferenças entre a Playboy brasileira e a norte-americana?

A brasileira é melhor, tem mais peso editorial, entrevistas mais sólidas e é mais respeitada. Além disso, não é uma top shelf magazine, ou seja, é muito bem posicionada no centro da banca, enquanto a Playboy nos Estados Unidos fica ao lado da Penthouse ou da Hustler. Como eu disse antes, isso acontece porque a publicação no Brasil é mais fiel aos princípios de Hefner do que a própria edição americana.

- Em média, qual o valor do cachê? Dá para comprar um bom apartamento?

Varia muito, mas dá pra comprar algumas dezenas de Big Macs.

- A imprensa sensacionalista, que especula o cachê das modelos, ajuda ou atrapalha o andamento das negociações?

Atrapalha, mas não há o que fazer. Eles escrevem o que bem entendem, fazem jornalismo de ficção.

- Quais ensaios fotográficos marcaram época?

Eu, particularmente, gosto muito do ensaio da Adriane Galisteu na Grécia, que considero o melhor já feito pela revista. Também gosto das fotos de Mylla Christie e da matéria com Flávia Alessandra. O último já na minha gestão.

- Ao lado dos ensaios, a Playboy sempre foi conhecida pelas entrevistas. Nestes anos todos, quais foram as mais importantes? E o que mudou de 1975 para os dias de hoje?

Várias delas. Teve a primeira do FHC onde ele dizia que havia fumado maconha. A do Ayrton Senna. Um dos aspectos que resgatamos na Playboy atual foi justamente a entrevista, que voltou a ter personagens de peso.

- Como você define o leitor?

O leitor da Playboy tem entre 25 e 35 anos, é urbano, de classe média e gosta das boas coisas que a vida oferece.

- É possível dizer que a censura contribuiu para o fortalecimento do conteúdo jornalístico da publicação?

Acredito que não. O período de censura foi muito pequeno na história da revista. O bom conteúdo jornalístico se deve aos diretores de redação que conduziram à revista nesses 32 anos.

- Por que o feminismo, no começo da trajetória da Playboy no Brasil, era o grande “medo” dos homens?

Não sei se era “medo”. O feminismo era um tema pertinente naquele momento e a revista refletia isso.

- Quais desafios o homem atual enfrenta? O que ele anseia?

O desafio é ser bem sucedido na vida pessoal e profissional. Isso não mudou muito. Mudou o papel da mulher na sociedade, mas isso vem mudando ao longo de 5 décadas (estou usando como marco zero os anos 60, embora isso não seja muito preciso), então é uma acomodação natural. Na essência, mudou muito pouco.

- Quem comprava a revista na década de 80 e for comprar uma edição hoje, que diferenças serão notadas?

Os textos ficaram menores e mais objetivos. O desenho gráfico evoluiu e mudou bastante. O tamanho da revista também mudou (perdeu altura), embora isso não seja perceptível numa olhadela apressada. Mas a revista, em essência, é a mesma. O mix de matérias é praticamente igual e a escolha das capas segue a mesma lógica.

- Mesmo com o fim da censura em 1988, as edições de Carla Perez (Dezembro de 2000) e de Ariane Latuf (Abril de 2001) foram censuradas. O que explica isto?

Desconheço essas histórias. Acho difícil que tenham sido censuradas, pois já não existia mais censura no país.

- Qual é o papel do editorial?

Tudo é editorial, inclusive a escolha da modelo de capa, que também deve ser jornalística. Por exemplo: a capa com a bandeirinha Ana Paula é uma escolha jornalística e isso explica o êxito que obtivemos na vendagem.

- Como você define Mário Escobar de Andrade?

Grande editor. Foi o cara que construiu os alicerces da Playboy brasileira. A revista que ele fez é referência até hoje.

- Na gestão de Juca Kfouri, estourava a crise econômica do governo Collor, o que dificultava contratar grandes estrelas. Como Playboy superou esta crise?

A crise foi do país, não da revista. Juca fez o melhor que pôde com o orçamento que tinha em mãos. Contratou bons profissionais e investiu no conteúdo jornalístico. Este é, aliás, o grande diferencial da Playboy. A revista não se resume ao ensaio de capa.

- A que se deve o sucesso de vendas alcançado por Ricardo A. Setti?

Em primeiro lugar à economia sem inflação e ao real forte. Em segundo, ao preço de capa (6 reais), muito mais baixo do que hoje em dia. Ele também teve a sorte de trabalhar com dois fenômenos pop simultâneos: a axé music (Sheilas etc) e as musas do Luciano Huck (Feiticeira, Tiazinha) etc.

- A revista acabou perdendo a identidade na gestão de Cynthia de Almeida. Matérias sem profundidade e estrelas populares eram estampadas todos os meses. Em sua opinião, a que se deve este desgaste?

Naquela época se acreditava que a revista precisava se popularizar para sobreviver, pois havia uma percepção de que o público da Playboy estava envelhecendo. Também há a questão do zeitgeist: as revistas que mais faziam sucesso na época eram as inglesas como Maxim, FHM, Loaded (e, no Brasil, a VIP – a VIP daquela época, não a de agora). Essas revistas eram mais molecas, mais atrevidas e mais pop. A Playboy passou a usá-las como referencial.

- Rodrigo Velloso assumiu o cargo de editor, provisoriamente, com o intuito de recuperar o padrão. Ele foi bem sucedido no seu intento?

Rodrigo Velloso foi meu antecessor e também concorrente, já que na época eu estava na Sexy. Prefiro não comentar a gestão dele.

- As regiões Norte e Centro-oeste são as que acumulam o menor número de leitores. Qual a explicação?

Não tem segredo: baixa densidade populacional e baixo índice de leitura.

- Há também um aumento no número de leitoras. Pode-se dizer que isto é um reflexo da superação da ascensão feminina?

Esse número ainda não é representativo. Menos de 10% dos leitores são mulheres. Esse índice permanece inalterado desde os anos 80.

- A importância da revista pode ser traduzida pelo número de peças publicitárias (cada anúncio de página inteira custa cerca de 90 mil reais). Qual o papel destes anunciantes?

Fundamental. A revista precisa também desta receita.

- Para encerrar, o que o leitor pode esperar daqui para frente?

Em termos editoriais, a Playboy faz um movimento que é back to basics, ou seja, uma volta às grandes reportagens, bons textos, entrevistas sólidas, excelentes ensaios. Estamos mirando num leitor que gosta de ler e não apenas de ver as fotos, pois as imagens estão todas de graça na Internet e não há o que possamos fazer para impedir isso. A estratégia está dando certo. As vendas estão subindo depois de 5 anos de queda e o número de assinantes também. Criamos algumas edições temáticas que vão pontuar o ano: gastronomia (abril e novembro), música (setembro) e retrospectiva/humor (janeiro). Vamos ter pelo menos mais uma temática no ano que vem. O desenho da revista está mais moderno e maduro. Os especiais foram todos reformulados e a idéia é trabalhar em todos os segmentos do mercado: os especiais com fotos, os DVDs e os dois Mundo de Playboy, que são nossas edições premium. Se tudo correr bem até dezembro, vamos tentar ganhar mais páginas no ano que vem.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Do Baú das Traças: Um Cabaret Para Liza (por Luiz Otávio Tal)

Bob Fosse vinha de um fracasso logo na sua estréia na direção. Charity Meu Amor, de 1969, não teve boa acolhida nem pelo grande público nem pelos críticos, apesar de alguns bons números musicais e do excelente desempenho de Shirley MacLaine. O próximo projeto tinha, então, a obrigatoriedade de alavancar bilheterias e comover o circuito da crítica, para que o diretor pudesse continuar ambicionando novos vôos. E foi exatamente o que aconteceu com Cabaret, de 1972, faturando 8 Oscars, incluindo melhor direção, melhor atriz (Liza Minnelli) e melhor ator coadjuvante (Joel Grey).

O filme é ambientado na Berlim dos anos 30, quando estava em ascensão o regime nazista. A grande maioria das canções funciona como um olhar crítico ao movimento. No entanto, todos os conflitos ideológicos são relegados em segundo plano. Todos os personagens observam a barbárie nazista sem se envolverem de fato.

Logo nos créditos iniciais, enquanto aparecem os nomes de todo o elenco, escutamos o burburinho dos boêmios que começam a chegar ao cabaré Kit Kat Club. A expectativa só vai aumentando quando a câmera se afasta, focalizando um espelho que reflete os contornos disformes de todos os presentes. Eis que surge Joel Grey, o mestre-de-cerimônias, que aqui repete o mesmo papel que anos antes fizera na Broadway. A canção de abertura funciona como uma apresentação, a fim de expor junto ao público todas as peças do xadrez. Em um close, Grey encara a câmera e diz: “olá, estranho!”, numa clara alusão de que ali todos são aceitos, de comunistas a nazistas. No cabaré, assim como em uma sala de cinema, todos os problemas são deixados de lado.

Neste contexto, Liza Minnelli é Sally Bowles, uma decadente cantora americana, que se apresenta no Kit Kat Club. A primeira imagem de Sally se dá pela fresta de uma porta entreaberta, que justifica sua famosa frase, repetida várias vezes no longa: “sou a pessoa mais estranha e extraordinária”. A energia de Liza logo toma conta da tela. Entusiasmada, mal deixa espaço para o talento de Michael York, que dá vida a Brian, um estudante gay, que chega a Berlim para prestar doutorado.

Frustrada, Sally vive em um mundo de fantasias, esperando que algum agente lhe dê uma oportunidade no show business em troca de favores sexuais. Ignorada pelo pai, um diplomata americano, vive a mentira de ter um tutor importante e ocupado. Toda esta tensão é extravasada aos berros em frente a um conjunto de linhas férreas. Aqui mais uma alusão: o som do trem que abafa a dor de Sally é semelhante ao ódio nazista que mina o sonho judeu.

O primeiro número musical de Liza acontece no palco do Kit Kat Club. Aliás, todos os números musicais acontecem dentro do cabaré, com exceção de “Tomorrow Belongs to Me”, um arrepiante hino nazista encenado em um café ao ar livre. Cantando Mein Herr, que foi composta especialmente para o filme, a estrela brilha sobre a fotografia premiada de Geoffrey Unsworth. Privilegiando as sombras, apenas o rosto de Sally é iluminado, reforçando o magnetismo de suas expressões, enquanto as dançarinas são encobertas por um refletor vermelho. A platéia, por sua vez, é engolida pela escuridão, pois na verdade somos nós os freqüentadores do cabaré.

O fato é que o filme é todo de Liza Minelli. Ela brilha do primeiro instante ao minuto final. Filha de Vincente Minnelli e Judy Garland, ela seguiu os conselhos do pai, veterano em musicais, na composição de sua personagem: cortou os cabelos de forma inusual e carregando na maquiagem ao redor dos olhos, o que ressalta a força de sua expressão facial. Liza nasceu para ser Sally Bowles. Tanto é assim que depois de Cabaret a atriz nunca mais conseguiu se reinventar, incorporando a persona da cantora decadente. Em seus filmes seguintes sempre trazia alguma característica de Sally, ora a boca suja, que profere impropérios sem o menor pudor, ora o olhar arregalado que desperta curiosidade.

O filme tem uma cena linda. Sally, após tomar banho, seduz Brian. Este, porém, a evita. Ela não aceita o descaso e a indignação fica clara em seu rosto, afinal é uma mulher atraente que desperta o desejo de toda a platéia do Kit Kat Club. Impaciente, tenta de novo seduzí-lo, ao som do jazz vindo da vitrola, e é mais uma vez deixada de lado. A frustração só é desfeita quando descobre que Brian é gay. Neste momento, uma feição de alívio toma conta do seu rosto, contudo, o envolvimento dos dois é inevitável.

Em uma trama paralela surgem Fritz Wender (Fritz Wepper) e Natalia Landauer (Marisa Berenson). Fritz é um caça-dotes alemão, que esconde sua origem judaica, no entanto, observa seus planos naufragarem ao se apaixonar pela milionária Natalia, que também é judia. Este enredo funciona a fim de costurar o clima nazista que permeia todo o filme. Para consumar seu amor Fritz precisa revelar sua identidade, tornando-se alvo do movimento. De um modo geral, o nazismo ainda era visto com ingenuidade pela população. Em determinado ponto do filme um personagem diz que aquele regime é um mal necessário, facilmente controlado, para combater os comunistas.

Após uma hora de projeção, a película perde o ritmo com a entrada em cena de Maximilian von Heune (Helmut Griem), um milionário bissexual que se envolve com Brian e Sally. O erro se deve a falta de expressividade de Griem, que destoa do afinado elenco.

O filme não mostra claramente o envolvimento entre Brian e Maximilian, até porque o homossexualismo era algo, praticamente, inexistente nas telas de cinema. Tudo é revelado por olhares e toques sutis, como na cena em que Brian segura a mão do milionário ao lhe acender o cigarro, ou quando aceita uma cigarreira de presente. O desfecho deste triângulo amoroso se dá em uma cena belíssima. Bêbados, os três se abraçam girando de maneira frenética. Os lábios dos três parecem querer se tocar, mas a câmera, sabiamente, interrompe o clímax, traduzindo uma realidade: Brian ama Heune, que ama Sally, que, por sua vez, não ama ninguém. Helmut Griem, no entanto, entra em cena tão abruptamente quanto desaparece.

Cabaret termina de modo pessimista, em virtude do futuro nada animador. Sally não está preparada para assumir responsabilidades, afinal ela é “a pessoa mais estranha e extraordinária” e como um cabaré, sempre precisa de platéias novas, que venham aplaudí-la e bajulá-la. Em uma das últimas imagens Brian caminha em direção ao trem, que o levará de volta a Londres, enquanto Sally dá as costas caminhando em direção ao espetáculo.


Ficha Técnica

Título original: Cabaret. Direção: Bob Fosse. Roteiro: Jay Presson Allen. Intérpretes: Liza Minnelli, Joel Grey, Michael York, Fritz Wepper, Marisa Berenson, Helmut Griem, Helen Vita, Ralf Wolter, Gerd Vespermann. Produção: Cy Feuer. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Desenho de Produção: Rolf Zehetbauer. Direção de Arte: Hans Jürgen Kiebach. Figurino: Charlotte Flemming. Edição: David Bretherton

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

O Vazio do Fait Divers (por Luiz Otávio Tal)


Ele está presente em todas as capas de jornal. Às vezes em pequenas manchetes, perdidas entre as informações. Já chegou até mesmo ao jornalismo on-line, ocupando o espaço dedicado às últimas notícias. Agora mesmo eu estava navegando pelo site do jornal O Dia e a primeira notícia com que me deparo é a seguinte: “ladrão é pego após roubar duas vezes a mesma casa”. E esta característica não é exclusividade do ciberespaço e do jornalismo impresso. De Gil Gomes a Luis Datena, há tempos vem conquistando a televisão.

O fait divers funciona como um romance do jornalismo; um gênero a parte. É o mecanismo utilizado para a publicação de acidentes e pequenos escândalos, sempre em tons sensacionalistas. Ao contrário dos fatos ligados a pessoas conhecidas ou a categorias próprias (saúde, educação, economia), que são informações que exigem um conhecimento prévio e que desencadeiam desdobramentos, o sensacionalismo trabalha unicamente com o universo externo de cada indivíduo, já que não é necessário cultura para absorvê-lo.

Este tipo de articulação se dá quando há o confronto de, pelo menos, dois elementos de um fato. Esta relação pode ser fruto da causalidade, que une dois termos de uma história a fim de produzir espanto, em que a causa é sempre desviada de sua lógica. A notícia publicada hoje pela Folha Online ilustra bem esta situação: “homem é preso após assaltar rabino com arma de brinquedo em SP”. Neste caso a revelação é sempre mais pobre do que o pressuposto inicial. Espera-se que um bandido promova assaltos com armas de verdade. No entanto, a nota surte o efeito desejado pela existência de uma curiosidade inesperada.

A relação de coincidência também designa o sensacionalismo. O acaso existe em função da variação, logo uma repetição de acontecimentos sempre chama a atenção. A coincidência pode ser de relação numeral, como o exemplo citado logo no início deste texto ou quando revira a causalidade, contrapondo os termos, como uma espécie de antítese. Um bom exemplo é a notícia publicada hoje pelo jornal O Dia On-line: “enterro de mulher que morreu em academia será hoje”. O que se espera quando uma pessoa vai até a academia é que fique com as formas definidas ou, ao menos, com a saúde em dia. Pois foi justamente o contrário que aconteceu com a carioca Natasha Fabrini, de 35 anos, que morreu enquanto fazia ginástica localizada, segundo o repórter Marco Antônio Canosa.

O que se percebe é que esse tipo de jornalismo vem ganhando cada vez mais espaço. Embora considerado um exercício de mau gosto, ele tem apelo popular, uma vez que consegue atingir a massa atomizada, que vive desprendida de memória. Ao final de um fait divers permanecemos mudo, pois os fatos expostos desviam do conceito de cultura.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Adeus a Roy Scheider (por Luiz Otávio Tal)


1971. Aquele ano foi marcado por uma revolução dentro do gênero policial. Até então o público estava acostumado com os filmes de estética noir, que se popularizou entre as décadas de 40 e 50. Com roteiros mirabolantes, este tipo de filme acabava por privilegiar o suspense em detrimento da ação. Eis então que surge, com apenas 36 anos, William Friedkin (O Exorcista), reinventando o gênero com Operação França (The French Connection). É claro que não se trata do primeiro filme policial a se destacar - antes disso Steve McQueen havia se popularizado com Bullit em 1968 – mas foi o primeiro a lançar uma fórmula, que passou a ser copiada nas películas seguintes: a da dupla de policiais.

Neste clássico a dupla é formada por ninguém menos do que Gene Hackman, mais explosivo do que nunca, e Roy Scheider, incorporando o policial que privilegia muito mais o cérebro do que a força física. “Popeye” Doyle (Hackman), chega a ser imprudente – uma atitude impensada acabou provocando a morte de seu antigo parceiro – e suas atitudes poderiam levá-lo em direção a novos erros se não fosse a sensatez de Buddy Russo (Scheider). O fato é que Gene Hackman merece todos os méritos pelo desempenho, que foi recompensado com o Oscar, mas se não fosse o apoio de Roy Scheider, acredito que esta fórmula nem chegaria a vingar.

E é com lamento que, mais uma vez, faço uso deste espaço para homenagear um grande ator que se despede. Aos 75 anos, o americano de New Jersey, morreu hoje, deixando um respeitável legado para Hollywood. Indicado ao Oscar por Operação Franca e por All That Jazz, interpretando a persona de Bob Fosse, Roy será sempre lembrado como o oceanógrafo de Tubarão, filme que abriu portas para uma grande onda de blockbusters.

Era o típico ator coadjuvante. Apesar dos pequenos papéis, na maioria das vezes, sempre encontrava uma fresta para brilhar. Foi assim em Maratona da Morte e em A Casa da Rússia. Ultimamente se dedicava aos seriados e a manifestações contra o governo norte-americano.

O Partido de Deus (por Luiz Otávio Tal)


O Partido de Deus é um movimento de resistência que lançou programas de saúde e bem-estar social em seu país, abriu escolas, e começou a olhar para além dos limites da política, criando um movimento de caráter nacional. O partido conta com a força de um jovem na liderança que já conseguiu construir uma boa reputação por sua honestidade e capacidade de planejamento estratégico. O reflexo é o aumento estrondoso de popularidade junto à população, ao ponto de ser saudado como o partido da salvação nacional. Tanto apoio fez com que ganhasse voz no governo e no ano 2000 obteve 12 cadeiras parlamentares nas eleições legislativas.

A história acima é uma das mais gloriosas a não ser por um detalhe: o tal Partido de Deus nada mais é do que o movimento “terrorista” Hizbollah. O nome é uma associação das palavras Hizbu (partido) e Allah (Deus).

Terrorista está grafado entre aspas porque a questão não é bem essa. A imprensa brasileira, talvez influenciada pela norte-americana, vem estereotipando o movimento exclusivamente como terrorista. Este aspecto vem da necessidade de definir o “bem” e o “mal” dos conflitos, encontrando assim um responsável por toda a frustração e destruição. O papel de bode expiatório da imprensa cabe, então, à força de resistência libanesa. Esquece-se assim todo um histórico de construção nacional através de apoio social e representação política.

O Líbano é sempre visto como o responsável por toda onde de baixas civis, destruição de hospitais e escolas de acordo com os jornais. A afirmativa sugere que os ataques vindos de Israel ou até mesmo das forças armadas americanas não matam pessoas inocentes ou atentam quanto o patrimônio dos países em conflito. Isto se deve ao fato de que Hizbollah ou Hamas são para a grande maioria grupos fundamentalistas radicais, ao contrário da estrutura sólida do Estado presente em países como Israel e EUA. Tido como radicais, estes grupos não têm o direito de lutar por suas causas e nem mesmo contra a ocupação estrangeira.

A manipulação da mídia em geral é claramente percebida sem precisar de muita pesquisa. Ao colher opiniões junto ao público universitário (teoricamente mais informado), a maioria dos entrevistados responderam que Hizbollah nada mais é do que um movimento terrorista. De cada dez pessoas abordadas, apenas duas lembrava-se do caráter social e político do movimento. “A primeira coisa que me vem à mente quando ouço a palavra Hizbollah é terrorismo” diz Iara Nascimento, estudante de 24 anos. Já Carolina São José, 20 anos, na contramão da maioria das pessoas, diz que é uma pena o tratamento que a mídia dá ao grupo, uma vez que há todo um trabalho social por trás.

Uma pena tanto descaso. Esta atitude só exacerba o comportamento passivo do país frente às grandes potências. Enquanto crianças morrem e cegam-se os olhos, vão se maquiando e modelando as informações para que adquiram o contorno a fim de atender as necessidades capitalistas dos impérios dominantes.


Histórico

O Hizbollah foi fundado no Líbano em 1982 em resposta as constantes invasões de Israel. Hoje conta com uma facção política e outra armada, conhecida como resistência Islâmica. A primeira grande vitória do grupo islâmico aconteceu em 2000 além das cadeiras no parlamento, conseguiu expulsar, depois de duas décadas de ocupação, o exército de Israel da região sul do Líbano.

O movimento é apoiado, tanto política quanto economicamente, pelo Irã, além de manter uma boa relação com a Síria e contar com fundos próprios, inclusive com empresas. Seu jovem líder é o xeque Sayyed Hassan Nasrallah, que é ovacionado por grande parte da população, além de encontrar adeptos pelo mundo todo que não hesitam em levantar seu retrato e faixas em atitude de protesto e apoio.

Além da milícia e do partido político, o Hizbollah mantém uma rede de hospitais, escolas e orfanatos e ainda uma emissora de TV. Tem 14 cadeiras (devido às últimas eleições legislativas, realizada em junho de 2005) entre as 128 do Parlamento libanês; seu eleitorado lhe permitiria ter pelo menos o dobro disso, mas o grupo faz campanha também para outros partidos.